Há um tempo atrás, vivi a experiência mais marcante da minha vida, quando fui para os Estados Unidos participar do planejamento de uma missão espacial a Marte.
Entrei nessa através de um concurso promovido pela Planetary Society, escrevendo uma redação sobre Marte e sobre equipamentos que seriam usados numa sonda exploradora desse planeta. Foi duro, levei muito tempo estudando esse assunto, mas valeu a pena, pois minha redação foi selecionada no Brasil e depois nos EUA. A seguir, fui entrevistado por telefone pela comissão julgadora e, finalmente, fui um dos nove vencedores em todo o mundo.
Quando eu me inscrevi para o concurso, não imaginei que pudesse chegar até onde cheguei, nem que o resultado assumiria tamanhas proporções. O fato de eu ter sido o único representante da América Latina classificado trouxe uma divulgação muito grande pela mídia e, já no dia seguinte ao resultado, eu estava famoso, aparecendo em jornais, revistas e na TV.
O prêmio que ganhei foi uma viagem para San Diego, na Califórnia, onde ficaria por uma semana participando de várias atividades envolvidas no planejamento de uma missão a Marte que vai trazer, pela primeira vez na História, amostra de solo marciano. Os cientistas precisam conhecer bem o local para onde vão enviar a sonda, para que seja particularmente interessante e seguro ao mesmo tempo. Passei alguns meses estudando um material que me foi enviado pela Planetary Society, onde estavam descritas as características dos lugares mais interessantes para se enviar a sonda.
Em fevereiro de 2001, voei para a Califórnia para me encontrar com os outros Estudantes Cientistas classificados. Lá tivemos contato com cientistas; visitamos laboratórios da JPL (Jet Propulsion Laboratory) da NASA; conhecemos o Malin Space Science Systems, onde vimos como são tiradas e interpretadas as fotos de Marte; assistimos a várias palestras dos grandes figurões na pesquisa espacial; aprendemos a manejar alguns equipamentos e vimos de perto o veículo chamado "rover", que vai andar em solo marciano e sobre o qual havíamos falado em nossas redações. Ver tudo isto de perto foi muito empolgante.
Mas, nossa estada por lá teve muitos momentos de descontração também, visitamos pontos turísticos, nos divertimos na Legoland, conhecemos artistas na Paramount Pictures e até um set de filmagens, realizamos um fórum com estudantes que vieram nos prestigiar, tiramos muitas fotos e conhecemos muitas pessoas. Entre nós o diálogo era um pouco difícil porque havia sempre tradutores intermediando o papo, mas resolvemos todas as paradas, um pouco em inglês, um pouco por gestos. Foi uma experiência incrível porque conseguiu reunir tantas culturas diferentes em torno de um único objetivo. Entre os Estudantes Cientistas havia dois húngaros, um polonês, três indianos, um taiwanês, um americano e eu representando o Brasil.
O objetivo especial do projeto, que foi denominado Red Rover Goes to Mars, era dar aos estudantes, pela primeira vez na história, a oportunidade de participar diretamente de uma missão espacial real, escolhendo lugares do solo marciano a serem fotografados por uma sonda que estava orbitando Marte na época. Feita a seleção dos locais, equipamentos foram programados, as fotos foram tiradas e recebidas por nós na Terra. Como se isto não fosse incrível o suficiente, as fotos ainda revelaram uma surpresa a mais. Um dos lugares fotografados mostrou estranhas formações, como rochas negras enormes, sobre as quais até hoje os cientistas ainda não têm explicações de como se formaram ou como estão ali.
Cada um de nós, estudantes, voltou para seu país trazendo muitas experiências vividas lá, coisas que ficarão para sempre em nossas memórias e nos trarão muita saudade.
Quando soube do concurso tinha 11 anos, quando viajei já tinha 12 e, agora já faz um ano que estive lá e estou com 13 anos. Continuo sempre em contato com o pessoal do projeto através de e-mails.
Valeu ter acreditado numa idéia, ter corrido atrás do meu objetivo, embora muitas vezes as coisas tenham ficado difíceis, e não ter desistido. Se não tivesse tentado, não teria hoje tudo isso para contar.
Iuri Jasper, março de 2002. |